‘Panorama’ de Daniel Blaufuks na Galeria Vera Cortês

Exposição de Daniel Blaufuks patente ao público na Galeria Vera Cortês
de 12 de janeiro a 25 de fevereiro de 2023

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PANORAMA
ou o centro não vai aguentar

Este trabalho não é sobre nada. Se me perguntarem, e já me perguntaram, sobre do que tratam estas imagens, eu não saberia responder. Não são, como trabalhos anteriores meus, sobre a Shoah ou sobre a impossibilidade de fotografar uma janela ou uma taça, nem sobre o tempo que flui ou as memórias do amanhã. Estas fotografias não são variações sobre uma mesma pauta. Não mostram uma cidade ou um grupo de pessoas, aliás, não há rostos nem arquitetura nestas fotografias, são imagens de um mundo, não anterior nem posterior à presença humana, mas de um mundo apesar das pessoas. Nem devem sequer ser vistas, talvez, como um núcleo de trabalho, como uma série, mas, antes, como obras per se, espelhos que reflectem o que pensei, imagens que vivem de si próprias e para si próprias, respiram sobre si mesmas, abrem-se ao olhar que as quer ver e fecham-se, por oposição, aos olhares desdenhosos. E não requerem leituras e releitura através de outras imagens que porventura as rodeiem neste momento. Um mais um continua aqui a ser um.

E, no entanto, elas dispõem-se em panorama, um pouco à maneira dos antigos panoramas em que as fotografias unidas criavam um todo, e dominam assim todo o horizonte que nos rodeia, que nos espelha, criam um universo próprio que só existirá aqui e agora.
As fotografias falam, antes de mais, da própria fotografia, do que escolhemos ou não fotografar. Respiram da liberdade de opções a partir da técnica fotográfica, o motivo, o sujeito, a cor, o preto e branco, negativo, positivo, filtro na objectiva ou posterior na pós-produção, película analógica, ficheiro digital, grande, pequena, distante, próxima, horizontal, vertical, não podes fazer isto, porque não? e tanto mais. E falam da capacidade de ver, de olhar, de observar, de controlar a direção do nossos olhos, se queremos ver ou se preferimos fingir que não vimos. É como se aqui os olhos fossem servidos num prato, não já os de Santa Lúcia, cujo nome é luz, sendo, no entanto, a patrona da eterna escuridão, mas os meus. Olhar as fotografias, é para isso que aqui estamos. Contudo, estamos a ver as fotografias ou a ver através das fotografias?

Estas fotografias, repito, não são sobre nada, ou, melhor, são sobre nada. E assim sendo, serão talvez sobre tudo. São algumas das imagens que encontrei por aí, ou outras que imaginei ou construí. São de um mundo em construção e em desconstrução, de um mundo caótico, que me fascina horroriza. São fotografias sobre o nada, porque são sobre o todo, sobre o nosso tempo, o nosso reflexo, a nossa violência, a nossa ganância, a nossa cegueira, o nosso medo, a nossa inação. Mas também falam da minha nossa alegria e da minha nossa vontade de viver, da minha nossa capacidade de sonhar. As fotografias aludem apenas, não mostram nada disto concretamente, porque as fotografias não tem necessariamente de ser sobre algo concreto, são monumentos e não documentos, não ilustram, mas reagem, são talvez poéticas visuais, serão porventura sobre o centro disto tudo, que parece não aguentar esta pressão, toda esta raiva, todo este desarranjo, começando já a estalar e as suas fendas e feridas alastrando, encontrando-se a si próprias do outro lado da esfera que habitamos, gerando sucessivamente novos impactos e novos embates. O gelo que derrete, a navalha em equilíbrio, o animal moribundo, o homem eu que tenta salvar o mundo com uma vela em constante apagamento ou mesmo apaziguamento, and all will be repeated. É o estilhaçar do sistema, que se gera e regenera quase sem nos apercebemos. Mas há inúmeras formas de substituirmos um sistema em dissolução, por outro que melhor se adapte a um mundo mais consciente e mais abrangente, finalmente talvez um sistema em que o humano, seja ele qual e quem for, o animal, seja ele de que espécie for, e o natural se reencontrem.

São cópias sem originais, imagens do que já vimos antes, seja em reprodução, como aqui, seja no mundo real, são deja-vus, porque hoje já vimos tudo várias vezes e o que não vimos foi porque não quiseste ver ou porque ainda não aconteceu. São forçosamente imagens paradas, um gelo que nunca irá derreter, e é isso que ainda me atrai na fotografia como médium, porque apesar de moderna, a sua ligação com as artes anteriores, a pintura e a escultura, faz-se por esta imobilidade e pelo silêncio, que não parecem existir em mais lado nenhum, num mundo em que tudo parece estar em mudança e em ruído constante. Reparem, tudo aqui se movimenta, menos, não, as fotografias também se irão movimentar em breve, tudo se movimenta, reforço, menos as imagens dentro das fotografias, aí o tempo ficou suspendido para quase todo o sempre. Outro paradoxo – as imagens dentro das fotografias, que são objectos movíveis – como um texto dentro do objecto livro, como se não bastasse já que estejamos a ver agora algo que eu já vi antes, os meus olhos nos vossos olhos. Mas como ver a imagem para além da fotografia em si? Não esqueçamos, por isso mesmo, que, apesar de estáticas, todas estas reproduções tem um instante próprio, que existe um antes e um depois deste momento de interrupção, uma fotografia não é nada mais do que uma interrupção do fluxo, um hiato na respiração, e um espaço em volta, muito para além dos limites do enquadramento que é apenas um recorte no espaço. Há aqui uma clara diferença com o desenho e com a pintura, que só existem dentro do seu respectivo quadro, enquanto a fotografia se estende para além deste. E até possui um som, se nos dispusermos a ouvir. Mais um paradoxo, escutar uma fotografia como alguém que pinta o silêncio.

Algumas destas fotografias alteram a realidade como nós a percepcionamos, invertem-se num ou mais sentidos. Quando dizemos que o mar é azul, sabemos que o mar é azul.
Mas será o meu azul igual ao teu? Falamos na cor como algo uniforme, mas desconhecemos as distinções visuais de cada um dos nossos cérebros. É uma metáfora, como qualquer outra, para tudo o resto que pensamos saber e percepcionar correctamente, sendo o correcto, por norma, aquilo que nós e os como nós pensamos. Mas tudo é fluido num mundo em mutação e o raciocínio também o deve ser, tal como, bem sabemos, os sentimentos o são. A ética antes da estética. O mundo é de certezas e incertezas, mas sempre o foi, apenas achamos que o nosso tempo é de maior incertezas que os outros, tal como os outros o acharam no tempo deles. Ainda não é no nosso tempo que virá o fim do mundo, embora, e disto não tenho dúvidas, a história do mundo seja uma história de velocidade, de aceleração contínua, que só poderá acabar em explosão ou no seu inverso, em implosão, o que, no fim de contas, irá dar ao mesmo.

A viagem imaginada pode ser melhor que a viagem viajada. E o sol, apesar de ter nascido hoje e ontem e antes de ontem, não nos assegura nunca de que nascerá novamente amanhã e assim o já em si, por muitas razões, ameaçador sol, que até já foi deus, pode inverter e tornar-se numa fonte de escuridão, como num eterno eclipse, dos quais os primitivos tinham tanto receio. Um mundo ao avesso. Cada luz tem a sua sombra e a sombra, que é presença, é feita, também ela, de luz, da própria ausência de luz. Não há morte sem vida, por outras palavras, não há sim sem não, não há positivo sem negativo, não há presença sem ausência e vice-versa, e este mundo pode ser igual, mas ligeiramente diferente.

E é dessa ligeira diferença, daquela luva de arquivo esquecida num arquivo também ele esquecido, de que, enfim, estas fotografias, estes silêncios, tratam, para quem conseguir ver. Ou então, serão apenas fotografias de nada, do nada, do que não importa, porque o que importa realmente é que não percamos a curiosidade de nos descobrir, mesmo que para isso nos tenhamos de entediar um pouco.

~ Daniel Blaufuks

Legenda da imagem: Daniel Blaufuks, The Boat Trip (Departure), 2003. Inkjet print on baryta paper.

Fonte: Galeria Vera Cortês

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Daniel Blaufuks
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